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Vibe Coding, Autocomplete Premium ou Code Assistant: em qual nível sua software house está usando IA?

Desenvolvedor usando IA como code assistant em pair programming no desenvolvimento de software

Você já parou para pensar que pode estar usando inteligência artificial do jeito errado no desenvolvimento do seu produto? Não estou falando de quem não usa IA. Estou falando de quem usa, mas não percebe que existe um abismo entre “deixar a IA fazer” e “fazer a IA trabalhar para você”. Esse é o erro fatal que muitos desenvolvedores e donos de software houses estão cometendo agora mesmo.

Na minha experiência mentorando mais de 300 software houses desde 2016, tenho visto uma confusão perigosa se repetir: empresas que tratam o desenvolvimento do produto principal da mesma forma que tratam uma ferramenta interna feita às pressas. E isso está custando caro. A boa notícia é que existe um framework simples para identificar onde você está e para onde precisa ir.

Os 3 níveis de maturidade no uso de IA para desenvolvimento

Depois de três meses estudando IA intensamente (umas 8 horas por dia), construindo plataformas reais e testando dezenas de abordagens, cheguei a uma classificação que tem ajudado muitos donos de software houses a se posicionarem:

Nível 0: Vibe Coding

É quando uma pessoa, sabendo ou não programar, vai até uma ferramenta de IA, descreve o que quer em linguagem natural, recebe um código e usa sem se preocupar com o que aconteceu por trás. Ferramentas como Lovable, Base44 ou V0 facilitam esse processo.

O termo “vibe coding” foi cunhado pelo pesquisador de IA Andrej Karpathy no início de 2025 e, como Addy Osmani (engenheiro do Google Chrome) definiu bem: se a LLM escreveu todo o seu código mas você revisou, testou e entendeu tudo, isso NÃO é vibe coding. Vibe coding é aceitar o código gerado sem revisar, confiando apenas nos resultados.

E não existe nada de errado com vibe coding para o cenário certo. Eu mesmo vibe codei um aplicativo para um evento em que fui palestrar. Em 1 hora e 9 minutos ficou pronto. Mas é um negócio que vai vender, ganhar escala, ser o principal core de dinheiro da empresa? Não. Então não tem problema.

Nível 1: Autocomplete Premium

Esse é o nível mais traiçoeiro. O desenvolvedor usa IA, mas se limita a aceitar sugestões de autocomplete um pouco mais sofisticadas. Não explora o potencial real. É como ter uma Ferrari na garagem e usar só para ir na padaria.

Muitos desenvolvedores estão nesse nível sem perceber. Usam GitHub Copilot ou Cursor para completar linhas de código, mas não estruturaram nenhum processo real de colaboração com a IA.

Nível 2+: Code Assistant (onde a mágica acontece)

Aqui entra o conceito que eu considero o mais produtivo hoje: a IA como pair programming real. É o conceito do Extreme Programming, onde você tem o piloto e o navegador. Com a IA, funciona assim: você dá o volante na mão dela (ela escreve o código), mas você está do lado dizendo “vai para cá, vai para lá, isso aqui está certo, isso aqui precisa mudar”.

Os dados confirmam o potencial: desenvolvedores reportam em média 35% de ganho de produtividade e economia de 3.6 horas por semana quando usam IA como assistente estruturado. Não é pouca coisa: são 187 horas por ano que você ganha de volta.

Por que o Vibe Coding é perigoso para seu produto principal

Os números são alarmantes. Um estudo da CodeRabbit analisando 470 pull requests no GitHub (dezembro de 2025) mostrou que código co-escrito por IA sem revisão adequada contém 1.7x mais problemas graves comparado ao código humano, incluindo 2.74x mais vulnerabilidades de segurança e 75% mais misconfigurações.

Mais preocupante ainda: em uma pesquisa com 18 CTOs, 16 relataram desastres em produção causados diretamente por código gerado por IA sem supervisão. Isso não é teoria, é realidade. O Stack Overflow chegou a publicar um artigo alertando que o vibe coding sem conhecimento de programação criou uma nova categoria de “piores programadores”.

Quando se trata do produto principal da sua empresa, aquele que sustenta a operação, que está no cliente, que gera receita, você simplesmente não pode vibecodar. Aí a coisa muda de figura.

As boas práticas que separam amadores de profissionais

Na construção da plataforma ExpX Play (mais de 350 cursos para software houses), 90% foi feita em um dia com IA. Mas não foi vibe coding. A diferença está em três pilares:

1. Arquivo de contexto (CLAUDE.md)

Todo projeto precisa de um arquivo que mantenha o contexto para a IA. No Claude Code, esse é o CLAUDE.md. No projeto da ExpX Play, são quase 300 linhas documentando a stack tecnológica (React, TypeScript, Vite no front, Supabase no back, Stripe para pagamentos), a arquitetura de rotas, o design system, padrões de código e regras do projeto.

Sem esse contexto, a IA simplesmente vai “esquecer” as decisões tomadas quando a janela de contexto se enche e compacta. Ela vai alucinar e escrever código fora do padrão. Isso acontece porque LLMs têm uma janela de contexto limitada. Elas vão gravando, gravando, e daqui a pouco compactam tudo e começam de novo. O CLAUDE.md funciona como a memória permanente do projeto.

2. Agentes especializados

Dentro do projeto, existem agentes para cada domínio: administração do sistema, autenticação, edge functions, frontend, integração com Stripe, Supabase e testes. Cada agente tem suas próprias diretrizes, componentes reutilizáveis, padrões de design system e exemplos de código.

Quando o Claude vai criar algo no frontend, por exemplo, ele carrega o agente de frontend que contém toda a stack, componentes editáveis, tipografia, animações e padrões de loops. É isso que impede a IA de sair escrevendo qualquer coisa.

3. Regras (Rules) que forçam qualidade

A regra número zero do agente de frontend diz: “Todo novo componente, página ou hook criado deve ter teste”. Essa única linha fez com que o sistema ultrapassasse 419 testes implementados em 111 arquivos.

Isso não é exagero, é necessidade. A própria Anthropic recomenda que TDD (Test-Driven Development) é o padrão mais forte para trabalhar com ferramentas de código agênticas. O workflow recomendado é: escrever testes primeiro, confirmar que falham, fazer commit como checkpoint e depois implementar até passar. Cada ciclo red-to-green dá feedback inequívoco para a IA.

TDD não é mais opcional, é obrigatório

Eu sei que muitas software houses, especialmente as menores, de cidade, de comunidade, nunca implementaram uma classe de teste sequer. Na minha experiência com mais de 300 empresas, a coisa mais rara é ter testes. Mas agora isso mudou.

Não existe qualidade na programação assistida por IA sem implementação de teste. Ponto final.

Quando a IA perde o contexto na janela e alucina em alguma coisa, são os testes que vão brecar. Na hora de compilar e rodar a suíte de testes, o sistema vai apontar: “opa, aqui brecou”. Por quê? Porque em algum momento a IA perdeu a referência e escreveu o que não devia. Sem testes, isso vai direto para produção.

Os dados reforçam essa urgência: 96% dos desenvolvedores não confiam totalmente que o código gerado por IA é funcionalmente correto. E aproximadamente 45% do código gerado por IA contém falhas de segurança. A barreira entre esse código problemático e seu ambiente de produção é justamente a suíte de testes.

O futuro que já chegou

O Claude Code saltou de 4% para 63% de adoção entre desenvolvedores em menos de um ano (maio 2025 a fevereiro 2026). Em fevereiro de 2026, 26.9% de todo o código em produção já era escrito por IA. Isso não é tendência, é realidade instalada.

E o que vai acontecer naturalmente é o seguinte: os programadores mais dedicados, que mergulharem no Code Assistant com boas práticas, vão se tornar tão produtivos que as empresas não vão precisar mais de juniors dentro da operação. Não é uma ameaça, é uma evolução natural.

Eu não sou um leigo falando isso. Sou programador Delphi raiz, MVP da Embarcadero, dava aula de boas práticas de programação, MVC, design patterns, clean code. E estou muito satisfeito com os resultados que tenho obtido. Quando olho o código gerado, a qualidade do que está sendo produzido, o resultado é impressionante, desde que você siga as boas práticas.

Conclusão: saia do nível zero

O erro fatal não é usar IA. O erro fatal é usar IA sem estrutura, sem testes, sem contexto e sem entender a diferença entre vibe coding e code assistant.

Se você tem uma software house e está nesse processo de evolução, meu conselho é direto: saia do nível zero (vibe coding para tudo), saia do nível um (autocomplete premium) e comece a entrar no nível dois, o Code Assistant com boas práticas. Monte seu CLAUDE.md, crie agentes especializados, implemente regras que forçam qualidade e, acima de tudo, implemente testes.

A IA é a Ferrari. Mas sem um bom piloto com as regras certas, ela vai bater no muro.

Sou Thulio, mentoro 300+ software houses desde 2016.


Este artigo foi baseado no vídeo “O ERRO FATAL ao Usar IA no Desenvolvimento (CUIDADO!)” do nosso canal no YouTube.
Assista ao vídeo completo: https://www.youtube.com/watch?v=ittLvxJZeYc

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