Você provavelmente já ouviu falar de vibe coding. Se não ouviu, está vivendo numa bolha, porque o termo dominou absolutamente tudo em 2026. Conferências, podcasts, timelines, processos seletivos. Todo mundo quer saber de vibe coding.
Mas eu preciso ser honesto com você: eu acho muito bom, eu acho muito bacana, eu acho que realmente tem que ser, eu só não acho que você deve botar todas as fichas numa coisa só. E eu vou te explicar por quê.
Na minha experiência mentorando mais de 300 software houses desde 2016, já vi esse filme antes. Uma tecnologia surge, todo mundo se empolga, quem não adota “fica para trás”, e dois anos depois a conversa já é sobre outra coisa. Aconteceu com no-code. Aconteceu com low-code. E pode acontecer com vibe coding também.
O Que é Vibe Coding e Por Que Ele Explodiu
O termo “vibe coding” foi cunhado por Andrej Karpathy, ex-diretor de IA da Tesla e pesquisador da OpenAI, em fevereiro de 2025. A ideia é simples: em vez de escrever código linha por linha, você descreve o que quer em linguagem natural e a IA gera o software. Em menos de um ano, o Collins Dictionary elegeu “vibe coding” como Palavra do Ano de 2025.
Os números são impressionantes. Segundo a Stack Overflow Developer Survey 2025, 73% dos desenvolvedores já usam ferramentas de IA no trabalho. A IA já gera 41% de todo código novo produzido globalmente, e a expectativa é que chegue a 60% em 2026. Plataformas como Bolt, Replit e Lovable permitem que qualquer pessoa com uma ideia construa um app funcional em minutos.
Não dá para negar: o vibe coding é real, é poderoso e está mudando a forma como software é construído. A questão não é se ele funciona. A questão é se você deveria apostar toda a sua estratégia nele.
O Padrão Cíclico que Ninguém Quer Enxergar
Eu tenho uma preocupação que vem da experiência. Lembra do no-code? Em 2020, era o futuro absoluto. “Qualquer pessoa vai criar apps sem saber programar!” Em 2022, o low-code assumiu o discurso. Plataformas visuais com drag-and-drop prometiam acabar com a programação tradicional.
O que aconteceu? Segundo previsões do Gartner, 70 a 75% das novas aplicações enterprise serão construídas com tecnologias low-code até 2026. Mas o no-code tradicional, aquele de arrastar e soltar, já está em declínio. As plataformas evoluíram para algo completamente diferente do que prometiam originalmente.
Vibe coding não existia há pouco tempo, e agora já passou a existir. Do mesmo jeito que isso está evoluindo, outras coisas também vão surgir. O futuro é sempre a próxima ferramenta, é sempre a próxima situação que vai aparecer com o avanço tecnológico.
Não estou dizendo que vibe coding vai desaparecer. Estou dizendo que a forma como ele existe hoje não é a forma como vai existir daqui a dois anos. E quem apostou tudo numa versão específica vai precisar se reinventar de novo.
O Paradoxo da Produtividade com IA
Aqui é onde a conversa fica interessante. Todo mundo assume que vibe coding traz produtividade. E traz. Mas existe um paradoxo que poucos discutem.
Pesquisas recentes mostram que desenvolvedores experientes usando ferramentas de IA como Cursor e Claude levaram 19% mais tempo para completar tarefas, mesmo acreditando que estavam 20% mais rápidos. Leu certo: achavam que eram mais rápidos, mas na prática eram mais lentos.
Além disso, código co-autorado com IA contém 1.7x mais problemas graves e 2.74x mais vulnerabilidades de segurança, incluindo injeção SQL, XSS e secrets expostos. O vibe coding gera a sensação de produtividade, mas muitas vezes só antecipa custo futuro. Sem padrão de código, sem revisão e sem testes automatizados, cada ajuste fica mais caro.
Isso não significa que a ferramenta é ruim. Significa que ela precisa ser usada com método. O profissional que simplesmente “vibra” com a IA sem entender o que está sendo gerado está criando uma bomba-relógio no código.
Apple Já Bateu o Pé: Quando o Hype Encontra a Realidade
Um caso recente mostra exatamente o tipo de resistência que o vibe coding vai enfrentar. Em março de 2026, a Apple impediu apps de vibe coding como Replit e Vibecode de atualizarem na App Store. O motivo? A regra 2.5.2, que proíbe execução de código que altera funcionalidades após a revisão.
O mais irônico? A própria Apple integrou ferramentas de IA da OpenAI e da Anthropic no Xcode, seu ambiente de desenvolvimento. Ou seja: vibe coding é bom quando a Apple controla, mas não quando abre espaço para outros competirem.
Esse tipo de barreira institucional vai se multiplicar. Regulação, compliance, segurança empresarial. O hype funciona bem em demos e protótipos, mas quando encontra o mundo real das grandes corporações, as regras mudam.
O Profissional que Sobrevive é o que se Adapta
Aqui vai o ponto mais importante, e é exatamente o que eu falo para as software houses que mentoro: vocês vão precisar virar agentes transformadores. A forma de você ter valor no mundo é aprender.
O vibe coding transforma o papel do desenvolvedor. Ele deixa de ser um escritor de código para se tornar um orquestrador que especifica requisitos, valida outputs e toma decisões arquiteturais. Isso é poderoso, mas exige um conjunto de habilidades diferente.
Para esse momento, nos próximos dois anos, o vibe coding pode sim ser o futuro da sua companhia. Os profissionais vão precisar dominar essa ferramenta porque ela traz desenvolvimento acelerado e produtividade real, quando usada com critério.
Mas não sei se é pro 10x que muitos estão buscando. Produtividade e crescimento exponencial são coisas diferentes. Vibe coding te ajuda a fazer mais rápido. Não necessariamente te ajuda a fazer melhor ou a crescer dez vezes.
O Que Fazer na Prática
- Adote vibe coding, mas com método. Use para prototipagem rápida, MVPs e tarefas de baixo risco. Sempre revise código relacionado a segurança, autenticação e dados sensíveis.
- Não aposte 100% numa tecnologia só. Diversifique as competências do seu time. O desenvolvedor que só sabe “vibar” com IA vai ter o mesmo destino do que só sabia arrastar blocos no no-code.
- Invista no profissional, não na ferramenta. Ferramentas mudam a cada dois anos. Capacidade de aprender, pensar criticamente e se adaptar, isso não expira.
- Prepare-se para o que vem depois. Se o padrão se repete, em 2028 estaremos falando de outra coisa. Quem tiver base sólida vai surfar a próxima onda. Quem apostou tudo no hype vai nadar contra a corrente.
- Meça produtividade real, não percebida. Implemente métricas concretas. Velocidade de entrega, taxa de bugs, custo de manutenção. Não se engane com a sensação de estar produzindo mais.
Conclusão
O vibe coding é real, é relevante e merece sua atenção. Ele pode ser uma ferramenta transformadora para a sua empresa nos próximos dois anos. Mas colocar todas as fichas numa tecnologia que não existia até ontem é uma aposta perigosa.
Na minha experiência com mais de 300 software houses, as empresas que mais cresceram foram as que aprenderam a surfar tendências sem se afogarem nelas. Adotaram o novo, mas mantiveram a base sólida. Usaram a ferramenta do momento, mas não confundiram ferramenta com estratégia.
O futuro é sempre a próxima ferramenta. Mas o profissional que se transforma em agente de mudança, esse tem valor em qualquer cenário.
Sou Thulio, mentoro 300+ software houses desde 2016.
Este artigo foi baseado no vídeo “VibeCode: O Futuro é AGORA ou Só um Momento?” do nosso canal no YouTube. Assista ao vídeo completo!